"Lições de Arquitetura", Herman Hertzberger
1. Público e Privado
Uma área pública é acessível a todos a qualquer momento e sua manutenção é de responsabilidade coletiva. Já a acessibilidade de uma área privada é determinada por um grupo de pessoas (ou uma única pessoa) e a responsabilidade por sua manutenção é limitada.
2. Demarcações Territoriais
Os espaços públicos e privados são determinados por graus de acesso, demarcações territoriais. Quanto maior o acesso, mais público o espaço aparenta ser e vice-versa. Existem também zonas intermediárias, como o espaço criado por pilotis.
3. Diferenciação Territorial
A diferenciação territorial é a diferenciação entre espaços com diferentes graus de acesso, manutenção e funções.
4. Zoneamento Territorial
O zoneamento territorial é a determinação do guarnecimento e o ordenamento do espaço.
5. De Usuário a Morador
Quando os usuários se envolvem no arranjo e mobiliamento de uma área, dando suas próprias contribuições ao projeto do ambiente, eles se tornam moradores.
6. O "Intervalo"
Soleiras e alpenderes são exemplos de intervalos, espaços onde ocorre a transição público-privado e vice-versa. Estes são importantes, pois é necessário que haja um equilíbrio entre o contato social e a privacidade: criar condições para a manutenção dos dois.
7. Demarcações Privadas no Espaço Público
Quando derrubamos a divisão rígida entre público e privado e incorporamos as sugestões espaciais adequadas em nosso projeto, os moradores se sentem inclinados a aumentarem sua área de influência pessoal e, por consequência, o espaço público é melhorado segundo o interesse comum.
8. Conceito de Obra Pública
Quando a comunidade para a qual um espaço público é criado não se sente pessoalmente responsável por ele, o espaço se torna uma "imposição vinda de cima" e perde parte da sua característica pública.
9. A Rua
A rua deve ser o lugar onde o contato social entre os moradores pode ser estabelecido. É preciso aproveitar todas as oportunidades possíveis para evitar uma separação rígida entre habitações e para estimular o que restou do sentimento de participar de algo que nos é comum. Ao mesmo tempo, é necessário achar o ponto de equilíbrio capaz de fazer com que os moradores possam também refugiar-se na privacidade quando o quiserem.
10. O Domínio Público
Se as casas são domínios privados, a rua é o domínio público, e ambos merecem a atenção do arquiteto.
11. O Espaço Público como Ambiente Construído
O espaço público é um ambiente construído. Antes do século XIX, se encontrava quase sempre ao ar livre. Os poucos edifícios públicos da época, como igrejas, universidades e anfi-teatros, não eram tão públicos assim, já que seu acesso sofria restrições. Foi depois do século XIX que edifícios públicos como lojas, mercados cobertos e estações de metrô começaram a surgir, e o espaço público se tornou uma parte maior da cidade.
12. O Acesso Público ao Espaço Privado
As pessoas reconhecem áreas como exteriores ou interiores (livre ou limitado acesso) com base em dimensões, materiais, forma e organização espacial. Grandes aberturas, pilotis e paredes de vidro são exemplos de elementos que sugerem um acesso livre. Assim como a aplicação ao interior do tipo de organização espacial e do material referentes ao mundo exterior faz com que o interior pareça menos íntimo, as referências espaciais ao mundo interior fazem com que o exterior pareça mais íntimo.
13. Estrutura e Interpretação
Quando se chega ao essencial, pessoas diferentes em situações diferentes fazem as mesmas coisas de maneiras diferentes e coisas diferentes da mesma maneira. A forma não apenas determina o uso e a experiência, mas também é igualmente determinada pelos dois na medida em que é interpretável e, portanto, pode ser influenciada.
14. Forma e Interpretação
A forma é capaz de adaptar-se a uma variedade de funções e de assumir numerosas aparências, ao mesmo tempo em que permanece fundamentalmente a mesma. À grosso modo, a "estrutura" equivale ao coletivo, ao geral, ao objetivo, e permite a interpretação quanto ao que se espera e ao que se exige dela numa situação específica.
15. A Estrutura como Espinha Dorsal Gerativa: Urdidura e Trama
A urdidura estabelece o ordenamento básico do tecido e, ao fazê-lo, cria a oportunidade para que se consiga a maior variedade e colorido possíveis junto com a trama. A urdidura deve em primeiro lugar e acima de tudo ser forte e possuir a tensão correta, mas, no que diz respeito à cor, tem apenas que servir como base. É a trama que dá cor, padrão e textura ao tecido, dependendo da imaginação do tecelão. A estrutura é como a urdidura e a interpretação individual é como a trama.
16. Grelha
A grade (grelha) é como uma mão trabalhando a partir de princípios extremamente simples - ela com certeza estabelece as regras gerais, mas é por demais flexível quanto ao detalhamento de cada sítio. Parece-se muito com um tabuleiro de xadrez, exemplo de regras simples e diretas que abrem um grande leque de possibilidades.
17. Ordenamento do Construção
O ordenamento de construção de um projeto é o resultado de uma compreensão mais profunda dos usos que lhe serão atribuídos, agora e no futuro. Em termos simples, é a unidade que surge num edifício quando as partes tomadas em conjunto determinam o todo e, isoladamente, derivam dele.
18. Funcionalidade, Flexibilidade e Polivalência
A flexibilidade representa o conjunto de todas as soluções inadequadas para um problema, está ligada à incerteza. A forma flexível nunca será a melhor e mais adequada solução. A polivalência, no entanto, é a capacidade da forma de se prestar a diversos usos sem que ela própria tenha de sofrer mudanças; está ligada à mudança. A forma polivalente permite que cada usuário, no presente e no futuro, obtenha uma solução adequada para seu problema.
19. Forma e Usuários: o Espaço da Forma
A capacidade da forma de absorver e comunicar significado determina o efeito que pode ter sobre os usuários e o efeito dos usuários sobre a forma. Ela é portadora potencial de significado: é significável.
20. Criando Espaço, Deixando Espaço
Cada forma deve conter a maior variedade possível de proposições que, sem impor, sejam capazes de despertar constantemente associações, motivando e estimulando o homem a adaptar seu ambiente a si mesmo.
21. Incentivos
Todas as formas inacabadas não devem ser apenas receptivas à adaptação e à adição, devem também, em certa medida, ser projetadas para acomodar várias soluções e devem, acima de tudo, pedir que sejam completadas. O arquiteto deve criar espaço e deixar espaço, nas proporções adequadas e com o equilíbrio adequado. Incentivo + associação = interpretação.
22. A Forma como Instrumento
A forma tomada como um instrumento oferece a ocasião para que cada pessoa faça o que mais deseja e, acima de tudo, para que o faça à sua própria maneira.
23. O Espaço Habitável entre as Coisas
Devemos ter cuidado para não deixar buracos e cantos perdidos e sem utilidade, e que, como não servem para nenhum objetivo, são "inabitáveis". O espaço habitável entre as coisas representa um deslocamento da atenção do âmbito oficial para o informal, onde se condiz a vida cotidiana, entre os significados estabelecidos da função explícita.
24. Lugar e Articulação
O espaço tem que ser como roupas nem apertadas demais a ponto de se tornarem desconfortáveis, nem largas demais a ponto de atrapalharem os movimentos. Quanto maiores são as dimensões, maior a dificuldade de usá-las com o máximo de vantagem. Todas as coisas deveriam receber dimensões corretas, aquelas que as tornam tão manuseáveis quanto possível. O espaço deve ser articulado para criar lugares, centros de atenção.
25. Visão I
Devemos buscar uma organização espacial que torne qualquer um, em qualquer situação, capaz de escolher sua posição em relação aos outros.
26. Visão II
Trazer o mundo exterior para dentro - ter uma visão do outro e do mundo exterior.
27. Visão III
A arquitetura deve ser capaz de adaptar-se às condições mutáveis do tempo e às diversas estações, como deve também adequar-se para ser usada tanto durante o dia quanto durante a noite; deve ser deliberadamente projetada para responder a todos esses fenômenos.
28. Equivalência
Quando um elemento pode desempenhar diversas funções dependendo de sua colocação em situações diferentes, quando pode se tornar o centro de um sistema, dizemos que existe equivalência.
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