"A ficção como cesta: uma teoria", de Ursula K. Le Guin
"As imagens dos caçadores de mamutes ocuparam espetacularmente as paredes das cavernas e o imaginário, mas o que nós realmente fizemos para permanecer vivos e saudáveis foi coletar sementes, raízes, brotos, botões, folhas, nozes, frutos, frutas e grãos, além de insetos e moluscos e pássaros, peixes, ratos, coelhos e outros pequenos animais que provêm proteína e podem ser capturados com redes ou armadilhas simples."
O texto se inicia com uma contextualização da vida comum pré-histórica, carente de grandes e gloriosas caças à mamutes realizadas com lanças afiadas. Esta carência de grandes emoções é tida como a causa do equívoco sobre o primeiro dispositivo cultural, o primeiro objeto. No imaginário popular (2001: Odisseia no Espaço), existe a imagem do homem (Homem-Macaco) matando com um objeto perfurante (osso) e a crença neste momento como o marco inicial da evolução humana. No entanto, é mais provável que o primeiro objeto tenha sido uma cesta, utilizada para guardar a colheita, a caça, a criança ou até mesmo as armas. Essa teoria é chamada de Carrier Bag Theory.
"Querendo ser humana também, procurei por evidências de que de fato eu era; mas se aquilo era o necessário para sê-lo, fazer uma arma e matar com ela, então, evidentemente, ou eu era um ser humano muito defeituoso, ou nem mesmo humana eu era. É isso mesmo, eles disseram. Uma mulher é o que você é."
A autora pontua que a história da lança, ícone da violência, como marco inicial da evolução humana deixa de lado uma parte crucial da civilização: as mulheres. A história do Herói humano que mata o mamute e perde a sua família inteira no processo é masculina, e deixa perguntas: O que as mulheres são? Onde estão? O que estavam fazendo?No entanto, a história da cesta é universal, afinal, todos precisamos carregar e guardar coisas. Além disso, nem todo homem pré-histórico matava um mamute por dia.
É um texto muito bom.
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